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Mário Monteiro

O Google e as suas estratégias para organizar toda a informação do mun

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O Google e as suas estratégias para organizar toda a informação do mundo - Parte 01

 

Este artigo foi baseado na entrevista que Nelson Mattos concedeu a Alexander Thoele para a swissinfo.

 

Nelson Mattos, executivo com 16 anos de experiência em banco de dados e em pesquisa na área tecnológica, ocupa atualmente o cargo de vice-presidente de engenharia do Google em Zurique, no recém-inaugurado Centro Google de Engenharia para Europa, Oriente Médio e África ou EMEA. Ele é o único brasileiro nos altos escalões da empresa.

 

De acordo com Mattos, o objetivo primordial do Google é organizar toda a informação do mundo. Em segundo lugar, fazer com que essa informação esteja disponível a qualquer usuário e que seja útil para ele. Isso configura um desafio para a empresa, afinal nem toda a informação no mundo é baseada em texto. Há imagens, vídeos e áudios que também são alvo das buscas online. O Google já dispõe de produtos com condições de buscar esses outros formatos através de uma única consulta, como o Universal Search.

 

Esses produtos são desenvolvidos em diversas partes do mundo, visto que a empresa adota uma postura de regionalização a fim de atingir de forma mais contundente o mercado consumidor.

Regionalização do Google

 

Segundo Nelson Mattos, todos os produtos da empresa estão voltados ao usuário final, que é diferente em cada lugar do mundo. Daí a importância de o Google saber as diferenças entre seus usuários. Para fazer isso na prática, a empresa desenvolve seus produtos em diferentes países desde o início do seu funcionamento. Para o grupo, se o objetivo é realizar a criação de produtos relevantes para cada usuário no mundo inteiro, são necessários engenheiros de desenvolvimento que tenham um bom conhecimento do comportamento e das necessidades de cada usuário. "E isso é impossível de fazer se você tem todo o desenvolvimento centralizado na Califórnia. Afinal, o pessoal que está sentado na Califórnia vai obviamente entender muito bem as necessidades da população americana. Mas você acredita que eles entenderiam a necessidade dos brasileiros, dos chineses ou dos noruegueses? Obviamente que não!" Devido a isso, o Google criou a estratégia de abrir centros de pesquisa e desenvolvimento em vários países do mundo.

 

Os principais objetivos desses centros de pesquisa são trabalhar em produtos e iniciativas que visam a ter impacto global, como o Google Maps, que é desenvolvido principalmente em Zurique, mas é usado no mundo todo, e adaptar os produtos Google, realizando o desenvolvimento de novas extensões e até de novos produtos específicos para um mercado local. Como exemplo, Mattos cita o Google Transit - uma extensão do Google Maps que dispõe informações sobre meios de transporte públicos. O executivo afirma que esse serviço é extremamente popular na Europa e, recentemente, a empresa lançou uma extensão que reúne todos os dados das companhias de trens e bondes da Suíça. Esse exemplo explica o sucesso dos produtos da empresa em alguns mercados em detrimento de outros.

 

O Orkut também confirma essa lógica, afinal foi criado por um funcionário turco do Google nos Estados Unidos, mas só faz sucesso no Brasil e na Índia. Para o executivo, essa é uma das grandes diferenças entre o Google e as outras empresas com centros de desenvolvimentos centralizados, que possibilitam que as companhias criem produtos específicos, que satisfaçam às exigências de cada usuário, e entendam culturalmente as necessidades de cada população.

Desenvolvimento de produtos e importância do usuário

 

Mattos explica que o ciclo de desenvolvimento de produtos no Google é algo extremamente curto, com duração de entre dois e três meses, pois o objetivo é lançar algo no mercado e avaliar a reação dos usuários. Devido ao fato de a empresa trabalhar diretamente com o usuário final, ao lançar um protótipo, ela pode saber imediatamente o nível de satisfação dele e o que é preciso para melhorar o produto. A partir daí, novos requerimentos são criados e desenvolvidos. Em aproximadamente três meses, a empresa tem uma noção do efeito das modificações e dá seguimento ao processo.

 

Ou seja, o Google "aproveita-se" dos seus usuários no desenvolvimento de seus produtos. Um grande exemplo citado pelo executivo é o Orkut, que, por ser muito popular no Brasil, fez com que a empresa recebesse muitos feedbacks da população brasileira de usuários, tornando-o cada vez melhor para essa comunidade.

Busca de imagens e vídeos

 

Em relação ao sistema de buscas oferecido pela empresa, Mattos acredita que, atualmente, os usuários estão satisfeitos com a interface oferecida pelo Google. Mas está ciente de que, a longo prazo, o volume de imagens e vídeos vai se tornar cada vez maior na web e pode chegar o momento em que o usuário queira uma interface diferente para a sua busca, que também pode mudar e se tornar mais refinada. E cita um exemplo: se um usuário tem uma foto da Torre Eiffel e precisar de outras, pois está fazendo um trabalho sobre o tema, seria muito mais fácil e mais objetivo se o usuário pudesse dizer: "busque as fotos parecidas com esta". Para isso ser possível, a interface teria que ser completamente diferente, porque o usuário não vai escrever em texto aquilo que procura. A fim de entender melhor a semântica desses dados, que são ainda menos estruturados, e também para tentar compreender qual é a melhor interface para o usuário ou qual a melhor maneira de expressar o que ele está buscando na web, é que ainda existe muita pesquisa nessa área.

 

Isso pode significar, num futuro próximo, uma mudança na famosa janela inicial do Google, com apenas um formulário e botões. Mattos imagina que a mudança evolua para uma interface mista. Na prática, significa o início de uma pesquisa, por exemplo, com o texto "Torre Eiffel". Em seguida, chovem websites, textos e fotografias sobre o tema. O passo seguinte seria escolher uma fotografia, com uma característica que tenha atraído mais o autor da busca, e dizer: "eu gosto desta fotografia". Daí inicia-se outra busca pela fala: "procure agora todas as outras fotografias que são parecidas com esta". Nesse momento, a busca não seria mais em texto, mas mostraria um exemplo e o usaria como base para uma nova consulta. As possibilidades parecem ser infinitas, e tudo vai depender do usuário.

 

Mattos lembra que o objetivo inicial dos primeiros sistemas de busca era encontrar um site ou um documento. Atualmente, o usuário é muito mais sofisticado e quer usar a mesma interface para obter respostas às suas perguntas. Um exemplo disso é quando se pede ao buscador do Google para fazer cálculos matemáticos, que é capaz de responder a perguntas simples, como informações sobre vôos para determinado lugar. Ele enfatiza que o grande desafio, num serviço como esse, é saber em que contexto o usuário se encontra, principalmente no início do diálogo, quando não se faz idéia do que ele quer, afinal o sistema não o conhece. Para ilustrar, o executivo cita um exemplo: "se ele coloca na primeira consulta a palavra em inglês `rock`, será que ele é um geólogo que quer saber sobre pedras? Ele pode também ser um músico, que está querendo saber mais sobre o tema. O problema é que você não tem nenhum contexto. Obviamente, quando damos os resultados da consulta e vemos que ele começa a clicar em documentos relacionados a pedras, quando ele fizer uma nova pergunta, poderemos criar um contexto para as perguntas que estão sendo feitas".

Credibilidade

 

Diante dessa situação, surge um novo desafio: a qualidade dos dados, afinal o objetivo do buscador do Google não é produzi-los, mas apenas indicar o caminho. Para Mattos, se o usuário está procurando documentos, a confiabilidade dos dados não é tão importante, porque o sistema mostra, inicialmente, dois caminhos a serem tomados. Entretanto, quando ele faz uma pergunta e espera uma resposta, a confiabilidade dos dados passa a ser extremamente importante, pois ele quer a resposta baseada nos dados confiáveis. "Por isso é fundamental saber selecionar os documentos não tão confiáveis e eliminá-los do meu processamento, para processar mais os outros. É uma questão de saber lidar com conflito". O executivo cita um exemplo prático: querendo saber a previsão do tempo em Milão, fez uma consulta no Google e recebeu respostas de cinco sites. A diferença da previsão de tempo foi gritante: em um lugar tinha sol e no outro tinha chuva, chegando haver diferença de seis graus na previsão do tempo em dois sites. Como o sistema vai saber qual desses sites é o mais confiável?

Privacidade dos dados dos usuários

 

Com o objetivo de responder melhor a essas questões, uma saída seria o Google ter acesso direto aos bancos de dados das empresas e ao perfil extenso do usuário. Mattos afirma que as respostas dadas pelo sistema são baseadas em informações que já estão disponíveis na internet, como a previsão de tempo e as informações sobre vôos. Isso acontece porque as empresas chegaram à conclusão, com o passar dos anos, de que era extremamente importante disponibilizar essas informações para manter sua competitividade no mercado. Ele não nega que quanto mais o sistema conhecer o usuário, melhor, pois seria descoberto um histórico que levaria a uma resposta mais satisfatória. "Isso ocorre na nossa interação como seres humanos: se você conhece uma pessoa há vinte anos e ela te faz uma pergunta, você sabe exatamente no que ela está interessada em saber", exemplifica.

 

A partir daí, entra-se na sensível questão da proteção de dados pessoais. O executivo do Google esclarece que se a empresa sabe mais sobre o usuário, ela tem condições de melhor servi-lo. Entretanto, existe a questão da sensibilidade na área de privacidade, e a política do Google é que o usuário permita a montagem desse histórico. Segundo Mattos, trata-se de um "opt-in", ou seja, o usuário tem que querer que a empresa mantenha o histórico, permitindo que o buscador saiba que ele havia feito outras consultas na semana passada, por exemplo.

 

Ele enfatiza que a empresa não realiza o cruzamento de dados do usuário nos diferentes serviços utilizados por eles, como Google Mail e Orkut, porque a empresa não tem confiança de que é isso de que o usuário gostaria. Afinal, seus dados de diferentes aplicativos estariam disponíveis para outras pessoas. Atualmente, se alguém se registra e está fazendo consultas, o sistema tem meios de saber as consultas realizadas dentro daquela seção e utiliza essa informação para tentar melhorar a resposta. Caso a mesma pessoa se conecte no Orkut, o fato de que ela possa ter feito dez consultas antes não é levado para o sistema do Orkut como informação para aquele contexto. Além disso, os dados não são mantidos por muito tempo: após 18 meses, o reconhecimento do usuário, através do endereço IP, é eliminado.

 

Fonte: http://imasters.com.br/artigo/8791/tec...ndo_-_parte_01/

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O Google e as suas estratégias para organizar toda a informação do mundo - Parte 02

 

Este artigo foi baseado na entrevista que Nelson Mattos concedeu a Alexander Thoele para a swissinfo.

 

A fim de seguir a premissa de ser o organizador de todas as informações disponíveis no mundo, o Google realiza atividades diversas no ambiente digital, que incluem as tão badaladas redes sociais, além de projetos atuais e futuros.

 

Redes sociais

 

Mattos mostra-se cauteloso em relação ao que a web 2.0 representará futuramente na internet, pois há alguns anos ninguém imaginaria que a rede tomaria essa tendência popular. Ele explica que, nos últimos dez anos, ocorreu uma redução significativa no custo dos processadores, do arquivamento e das ferramentas para a criação de conteúdo na área tecnológica. Isso possibilitou que os usuários começassem a colocar seu conteúdo na rede, o que era feito somente por empresas.

 

Isso também foi possível porque praticamente todas as empresas começaram a se lançar na web e a disponibilizar seus dados, permitindo aos usuários realizar transações como comprar produtos. Para o executivo, isso representa uma revolução do ponto de vista empresarial. Atualmente, a mesma revolução está ocorrendo, mas no nível dos indivíduos. "As pessoas se sentem hoje em dia livres para se expressar, colocar suas imagens, torná-las acessíveis aos amigos e parentes que moram em outro país e permitir que eles se comuniquem entre si. Antigamente, a comunicação existia em nível empresarial. Hoje em dia, é extremamente barato utilizar e-mail, acessar blogs etc", argumenta.

 

Para Mattos, a única certeza que as redes sociais trazem é que elas permitirão a democratização do acesso à internet e também o aumento das possibilidades de as pessoas se expressarem. Ao Google cabe, nesse sentido, também organizar essas informações e torná-las disponíveis a quaisquer pessoas, afinal se o objetivo da empresa é organizar toda a informação do mundo, as que estão sendo produzidas nas redes sociais e pelo usuário também são informações. A estratégia da empresa não é necessariamente competir com todos os sistemas de redes sociais, mas existe a necessidade de permitir a compatibilidade e o transporte de dados entre elas, que são baseadas em plataformas técnicas totalmente diferentes.

 

OpenSocial

 

O OpenSocial tem justamente o objetivo de ser uma linguagem comum nessa área. Ele é uma plataforma que permite a troca de dados entre todos esses sistemas. Para Mattos, essa é uma tentativa de se criar uma norma que permitiria a qualquer usuário interagir nessas redes sociais e, também, às empresas criarem aplicativos com condições de rodar em todos eles.

 

O objetivo do Google com o OpenSocial é continuar incentivando a inovação na web e possibilitar que uma empresa de rede social crie um novo aplicativo que possa ser desenvolvido apenas uma vez, para, em seguida, ser aproveitado por todas as outras. Para Mattos, os grandes beneficiados seriam os usuários, pois muitos deles utilizam mais do que uma rede social e com interesses distintos: às vezes, um ambiente é utilizado para a área profissional e outros para a pessoal; às vezes os contatos podem ser profissionais e privados ao mesmo tempo. A lógica seria, então, uma ferramenta que permitisse que esses dados fossem extraídos de um e colocados no outro sob o controle pessoal, e um sistema aberto tornaria bastante fácil essa ação.

 

Google Mobile - seria a aposentadoria do computador?

 

O Google Mobile, cuja grande parte do seu desenvolvimento acontece no centro de pesquisas de Londres - principal foco de telefonia celular do Google -, segundo Mattos, é um projeto extremamente importante para a empresa. O motivo? Atualmente, para cada PC vendido no mercado, são vendidos três celulares. O executivo alega que em países do Terceiro Mundo já há uma grande quantidade de usuários com acesso à web pelo celular e que, provavelmente, nunca terá condições financeiras de comprar um computador. Ele acredita que as grandes questões em relação a isso são: mesmo que o preço dos PCs continue a cair e se torne acessível a todos, será que os usuários vão querer realmente utilizá-lo? Ou será que eles irão gostar tanto da interface do telefone celular, que mesmo o barateamento dos computadores não será um grande incentivo ao seu uso? Para o Google, o mobile é uma grande possibilidade de fazer com que a web e as informações disponíveis nela sejam acessíveis a qualquer usuário. Seria, então, o fim do computador? Para Mattos, ainda não. Ele afirma não conseguir se ver, nos próximos três anos, abandonando seu laptop por um celular num ambiente empresarial. Entretanto, existem pessoas que não terão acesso a um PC nos próximos anos, mas já elas têm acesso ao celular.

 

Em relação aos aparelhos móveis, a estratégia do Google é permitir que seus programas possam rodar em qualquer celular, repetindo o sucesso dos serviços Google em PCs. Isso já começou, visto que os aplicativos da empresa viraram febre no iPhone. A outra estratégia é criar um padrão único de sistemas para mobiles. Isso ainda não existe no mercado, tornando extremamente difícil o processo de inovação nessa área, já que praticamente cada celular possui um sistema operacional ou uma plataforma de desenvolvimento de software diferente.

 

Tentando ser uma alternativa nesse sentido, o Android, sistema operacional recentemente anunciado pelo Google, visa a criar uma plataforma padrão de software que tenha condições de rodar em qualquer celular. Mattos afirma que o objetivo é ser como os sistemas operacionais padrão, como o Linux e o Unix, que funcionam em qualquer hardware.

 

Google Applications

 

A função do Google com o Google Applications é contribuir para o objetivo maior da empresa: organizar as informações do mundo e fazer com que elas se tornem acessíveis a qualquer pessoa. O executivo explica que como as informações são sistemas de processamentos de textos, imagens, tabelas de cálculo e assim por diante, os aplicativos foram criados para ler e manipular esses dados. Daí surgiu a idéia de rodar esses aplicativos numa arquitetura chamada de "cloud computing" (aplicações em que os dados não ficam no computador local, mas sim na forma de uma nuvem - cloud - em um sistema distante), que possibilita ao usuário acessar seus documentos de qualquer lugar.

 

Ele afirma que utiliza o sistema na sua vida pessoal. Se você viaja ao Brasil para visitar parentes, por exemplo, tem condições de acessar exatamente os mesmos documentos que acessaria do país onde reside. Esse serviço permite, por exemplo, a criação de um calendário com todas as atividades. E é o que Mattos faz em suas viagens: em sua conta particular do Gmail, disponibiliza um calendário para sua família, que se encontra espalhada por diferentes lugares do Brasil e do mundo. Mais uma vez, o executivo enfatiza que o objetivo é fazer com que os dados estejam disponíveis para qualquer pessoa do mundo.

 

E agora?

 

O Google será bem sucedido na sua jornada de organizar todas as informações do mundo? Só o tempo dirá. Entretanto, as informações fornecidas por Nelson Mattos dão a dimensão da importância que a empresa dá a esse objetivo, já que ataca ferozmente todas as frentes de atuação em seu seguimento. Não é à toa que a empresa é líder no mercado de buscas há um bom tempo.

 

Fonte: http://imasters.com.br/artigo/8793/mer...ndo_-_parte_02/

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